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Cotidianos e secretos

Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos.

Pois é, Drummond.

Por   Aspas, Literatura   março 12, 2010   0  

Nota sobre Bruno Tolentino

Lendo o ensaio «O cego nu: um exórdio», o primeiro dos dez que abrem o livro O mundo como ideia, de Bruno Tolentino, deparei-me com uma prosa repleta de procedimentos poéticos, o que torna a leitura um tanto quanto difícil. Sintaxes inusitadas, metáforas, conceitos densos, ironias, referência sutis, riqueza lexical, abuso de palavras (e frases inteiras) em outros idiomas — tantos recursos demandam do leitor muita atenção. Se na poesia a fusão de diversos procedimentos é algo esperado, o mesmo não pode ser dito sobre a prosa. Creio que tal estilo seja a base do hermetismo que os ensaios manifestam em uma primeira leitura. O estranhamento talvez tenha sido ampliado pelo fato de O mundo ser a primeira obra de Tolentino que leio. Certos autores demandam, ou melhor, exigem que o leitor se familiarize com um universo conceitual todo novo. Esse parece ser o caso de Tolentino. Em O mundo, por exemplo, a palavra «luz» possui significados nada óbvios, o que torna árduo o entendimento daquilo que o poeta quis expressar. É preciso, gradualmente, palavra por palavra, se habituar àquela peculiar sensibilidade. Há ainda outro elemento que tem dificultado a decifração da obra: Tolentino dialoga intensamente com o universo da pintura, que conheço superficialmente. E como o livro é uma espécie de discussão sobre a relação forma-realidade, o obstáculo não é pequeno.

A mistura de poesia, crítica de arte e reflexão filosófica que O mundo apresenta evidencia que o autor não teve medo de ser ambicioso. Tal postura — corajosa, diga-se — tornou o livro inacessível ao leitor despreparado. Drummond, no célebre «Procura da poesia», já alertava que as palavras, quando usadas poeticamente, possuem «mil faces secretas». É o que se sente ao ler esses ensaios de Toletino. Frase após frase, percebe-se que a força bruta é inútil. Tempo e intimidade (com a arte? com a mundo supra-sensível?) são as condições — «a chave», diria Drummond — para se adentrar. E ainda há os poemas.

Por   Literatura   junho 17, 2009   2