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Ok Auerbach
No famoso primeiro capítulo de Mimesis, de Erich Auerbach, intitulado «A Cicatriz de Ulisses», o crítico parte de um episódio da Odisséia para argumentar que o elemento da tensão é muito débil nas poesias homéricas. A cena em questão se dá no canto 19, quando Ulisses regressa e Euricléia, sua antiga ama, o reconhece por uma cicatriz na coxa. O relato desse incidente é interrompido, observa Auerbach, por mais de setenta versos. Isso ocorre exatamente no momento do reconhecimento. Após detalhada explicação da origem da marca, o narrador retorna ao aposento da dupla. É como se eles tivessem permanecido congelados, ela com careta de surpresa. Só então Euricléia deixa cair o pé de Ulisses na bacia. Habemus tensão? Nem.
Segundo Auerbach, Homero não conhece segundos planos. «O que ele nos narra é somente presente, e preenche completamente a cena e a consciência do leitor.» Tal idéia é reforçada por uma citação de Schiller, que — em correspondência a Goethe — disse que Homero descreve «meramente a tranqüila existência e ação das coisas segundo a sua natureza». Ou seja, não há espaço para a penumbra e para o inacabado no estilo do poeta, mas sim «necessidade de exteriorização dos fenômenos». Quando a cicatriz aparece no decorrer da ação, não é possível ao estilo homérico «deixá-la emergir simplesmente da escuridão de um passado obscuro; ela deve sair claramente à luz, e com ela, um pouco da juventude do herói». Isso ocorre não apenas com as ações, mas também com os processos psicológicos, uma vez que as personagens de Homero mostram o que carregam dentro de si por meio de discursos, e «o que não dizem aos outros, falam para si», em voz alta, quase berrando. Um exemplo desse mecanismo, muito bem destacado por Auerbach, ocorre quando, antes e após lutarem, Heitor e Aquiles falam, falam e falam.
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Literatura outubro 28, 2008 0
