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Saggezza antica
Por algum motivo banal, talvez mera desatenção, eu nunca havia lido nada do economista e professor Ubiratan Iorio. Mas acabei assistir à gravação de um palestra dele (partes 1, 2, 3, 4 e 5), o que me fez incluí-lo na minha lista de nomes aos quais devo prestar mais atenção. Os artigos do economista podem ser lidos neste link.
Pelo que vi até agora, Iorio realmente segue aquela frase de Hayek que está na abertura do seu site ( «…an economist who is nothing but an economist cannot be a good economist») e também escreve sobre política e sociedade. Nada contra a Economia em si, mas considero os temas ditos culturais (em sentido amplo) mais importantes. Para justificar essa preferência, recorro às aulas sobre literatura brasileira e sobre short stories que tenho na universidade. As duas disciplinas são ministradas por professores brilhantes, mas que são — fato dominante na vida acadêmica brasileira — esquerdistas (o que evidencia como inteligência e sabedoria nem sempre caminham juntas, mas essa é outra história). Eles não hesitam em estabelecer relações entre literatura e vida social, mas o fazem de um modo que é, no mínimo, enviesado. É algo surreal ouvir o professor de literatura brasileira analisar poemas recorrendo a Otto Maria Carpeaux ao mesmo tempo em que pontua seus raciocínios com conceitos socialistas. A professora de short stories também faz proselitismo ideológico sempre que pode. Seu alvo preferido parece ser a Igreja Católica. Mas não é novidade para ninguém que no Brasil de hoje a esquerda praticamente monopoliza as discussões públicas sobre diversos temas, como observa Iorio em «As várias faces do radicalismo».
Dos poucos artigos que li, destaco um sobre o filósofo italiano Giovanni Reale, que despudoradamente copio abaixo. Não coloco o link direto para o site do autor porque lá o material está compactado. Divirtam-se:
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Aspas, Atualidades, Filosofia abril 18, 2009 0
Et in Arcadia ego
Por indicação acadêmica, li Antigüidade Clássica, um livreto no qual, depois de algumas considerações sobre Roma e Grécia antigas, os autores concluem o óbvio: «nossa cultura [ocidental] se apóia em séculos de investigação dos clássicos, legado presente em quase tudo que fazemos ou pensamos.» Estão montados na razão. Sem conhecer a Ilíada e a Eneida eu não perceberia que há um Aquiles e um Enéias dentro das cabeças de todos nós, mesmo que não o saibamos. Talvez a influência clássica esteja um pouco soterrada pelas idéias do guru moderno, Marxnietzschefreud, que ocupou a praça e lá, há anos, anda a fazer prestidigitações. Mas Cyndi Lauper passou, ele passará e Mário Quintana passarinho.
Voltando ao livreto, o elemento central ao redor do qual os autores constroem seus argumentos é a ruína do templo de Bassai, dedicado ao deus Apolo e localizado na Arcádia. Mais especificamente, eles analisam o friso dessa construção grega, hoje preservado no Museu Britânico, em Londres. Para tentar decifrar as figuras entalhadas na pedra, acabam criando uma reflexão sobre a tradição greco-romana.
O que mais me interessou foi a discussão final, sobre como a Arcádia é vista e retratada de modos diferentes por diversas obras de arte ao longo da história. Políbio, historiador grego que viveu no século 2 a.C., ele próprio um árcade, conta que região era tão desolada que o canto era a única coisa que restava àquela população como forma de ter algo mais do que apenas uma vida dura. O curioso é que a visão que temos hoje do local é diferente. Até nós chegou uma Arcádia idílica, justamente aquela retratada nas Bucólicas, de Virgílio. Imaginamos um paraíso pastoril repleto de prazeres, cujo lema é o famoso carpe diem.
Um episódio interessante, segundo o livro, envolvendo a Arcádia, se dá na Roma do início do século 17. O cardeal Giulio Rospigliosi (que posteriormente se tornaria papa com o nome de Clemente IX), inspirado por um epitáfio presente na já citada Bucólicas, cunhou a frase «et in Arcadia ego» (e/até na Arcádia eu). O mote apareceu em Na Arcádia, pintura encomendada a Nicolas Poussin pelo próprio cardeal. A frase seduziu a imaginação de diversos artistas e originou várias obras, como o capítulo «Também eu na Arcádia» das Viagens pela Itália, de Goethe, e o retrato das senhoras Bouviere e Crewe pintado por sir Joshua Reynolds em 1769, a respeito do qual há uma curiosa anedota no livro:
Reynolds faz uma das senhoras apontar de forma indagadora a inscrição numa lápide, enquanto a outra a examina em profunda contemplação: ET IN ARCADIA EGO ataca novamente. A tela fazia parte de uma das primeiras fornadas de quadros de Reynolds como presidente da Real Academia (instituição que fora idealizada por ele e acabara de ser formalmente criada em 1768 com o objetivo de organizar a educação artística da alta sociedade britânica). Conta-se que ele mostrou o quadro ao amigo Johnson (primeiro professor de literatura antiga da Real Academia, a partir de 1770) e que este ficou intrigado, achando «sem sentido [a frase] ‘estou na Arcádia’». O que aquilo queria dizer? O artista replicou que o rei Jorge III tinha imediatamente captado o sentido no dia anterior: «Ai, ai», exclamara, «a morte está até na Arcádia.»
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História, Literatura novembro 8, 2008 0
