O barbeiro suburbano

A linguagem é diálogo por essência, e todas as outras formas do falar diminuem o poder de sua eficácia. Por isso, acho que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este sente como se uma mão ectoplásmica saísse das linhas para tocar sua pessoa, para acariciá-la — ou então, cortesmente, dar-lhe um soco.

Há alguns dias, em um passeio improvável e repleto de discussões idem (como o leitor sabe, tal combinação é o que há de melhor em termos de convivência humana), um amigo me recomendou a leitura da encíclica Spe Salvi, de Joseph Ratzinger, vulgo Benedictus XVI, com um argumento convincente. Disse ele que o Pontífice, tanto nesse quanto em outros de seus textos, nos convida ao diálogo. Li e não me surpreendi com o que encontrei. Sei que Ratzinger é ótimo argumentador desde a leitura de um debate entre ele e Habermas, no qual fica evidente que aquele articula as idéias de modo mais agradável do que este. Meu amigo estava certo: Spe Salvi é um diálogo tanto com o leitor quanto com a Modernidade.

Em certo momento, Ratzinger faz uma distinção oportuna: diz que o progresso material da humanidade não pode prescindir do progresso moral, afirmação que qualquer indivíduo que conheça a história do século 20 não pode contestar sem parecer ridículo. Afinal, se o homem pode hoje realizar coisas incríveis apenas apertando botões, não é aconselhável que ele permaneça estacionado em uma espécie moral indígena. Dito de modo claro: não se entrega armas de fogo a crianças — é tão óbvio que se sinto meio idiota de não ter percebido isso antes.

Esses dois elementos presentes em Spe Salvi — a saber, o convite ao diálogo e crítica ao progresso meramente materialista — impregnaram os meus pensamentos por algumas horas. Depois, como é natural, os esqueci. Até que, dias depois, reencontrei-os ao ler A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. Como você já percebeu, leitor, um dos trechos a que me refiro é aquele que abre este post. Eis o outro:

Boa parte da perturbação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das «ciências morais». O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista costumam ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê o tom do nosso tempo?

Por   Filosofia   14 de novembro de 2008  

2 comentários

1 Caio Marinho Ribeiro. { 11.15.08, 3:35 am }

Não é preciso ir tão longe quanto o começo do século 21: em “2001″, Kubrick nos mostrou como uma ferramenta bem trabalhada afeta o julgamento humano: ao legar o segredo da missão não aos pilotos, mas ao computador da nave.

Sim, ele mata todo mundo, mas isso é para outra história.

2 João Paulo { 11.16.08, 2:09 am }

HAL é um dos melhores vilões: "I'm afraid. I'm afraid, Dave. Dave, my mind is going. I can feel it. I can feel it. My mind is going. There is no question about it. I can feel it. I can feel it. I can feel it. I'm a… fraid. Good afternoon, gentlemen."

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