Posts sobre História

Agamêmnon e Abraão

Durante a homilia, domingo, o padre não falou do Dia Internacional da Mulher ou sobre «justiça social», mas sim do quase sacrifício de Isaac. Recorreu a Homero e à mitologia para observar que, enquanto Deus impedia que Abraão matasse uma criança, uma das quatro filhas de Agamêmnon era sacrificada a uma divindade pelo próprio pai. Por contraste, fica claro que o Deus dos Hebreus repudia sacrifícios humanos. Tal fato torna mais inquietante a lembrança de que um anjo suspendeu o sacrifício do pequeno Isaac, mas nenhum ousou interromper o massacre de Jesus.

Como é bom quando um sacerdote diz coisas relevantes, demonstrando que todos aqueles anos de estudos lhe foram úteis. No final, pareceu-me que, com aquelas digressões, o padre criticava, apesar da sutileza, a prática de abortos. Foi então que lembrei-me dessa notícia:

In describing his conversion, Adasevic «dreamed about a beautiful field full of children and young people who were playing and laughing, from 4 to 24 years of age, but who ran away from him in fear. A man dressed in a black and white habit stared at him in silence.  The dream was repeated each night and he would wake up in a cold sweat. One night he asked the man in black and white who he was. ‘My name is Thomas Aquinas,’ the man in his dream responded. Adasevic, educated in communist schools, had never heard of the Dominican genius saint.  He didn’t recognize the name»

Por   Atualidades, História, Literatura   10 de março de 2009   2  

Et in Arcadia ego

Por indicação acadêmica, li Antigüidade Clássica, um livreto no qual, depois de algumas considerações sobre Roma e Grécia antigas, os autores concluem o óbvio: «nossa cultura [ocidental] se apóia em séculos de investigação dos clássicos, legado presente em quase tudo que fazemos ou pensamos.» Estão montados na razão. Sem conhecer a Ilíada e a Eneida eu não perceberia que há um Aquiles e um Enéias dentro das cabeças de todos nós, mesmo que não o saibamos. Talvez a influência clássica esteja um pouco soterrada pelas idéias do guru moderno, Marxnietzschefreud, que ocupou a praça e lá, há anos, anda a fazer prestidigitações. Mas Cyndi Lauper passou, ele passará e Mário Quintana passarinho.

Voltando ao livreto, o elemento central ao redor do qual os autores constroem seus argumentos é a ruína do templo de Bassai, dedicado ao deus Apolo e localizado na Arcádia. Mais especificamente, eles analisam o friso dessa construção grega, hoje preservado no Museu Britânico, em Londres. Para tentar decifrar as figuras entalhadas na pedra, acabam criando uma reflexão sobre a tradição greco-romana.

O que mais me interessou foi a discussão final, sobre como a Arcádia é vista e retratada de modos diferentes por diversas obras de arte ao longo da história. Políbio, historiador grego que viveu no século 2 a.C., ele próprio um árcade, conta que região era tão desolada que o canto era a única coisa que restava àquela população como forma de ter algo mais do que apenas uma vida dura. O curioso é que a visão que temos hoje do local é diferente. Até nós chegou uma Arcádia idílica, justamente aquela retratada nas Bucólicas, de Virgílio. Imaginamos um paraíso pastoril repleto de prazeres, cujo lema é o famoso carpe diem.

Um episódio interessante, segundo o livro, envolvendo a Arcádia, se dá na Roma do início do século 17. O cardeal Giulio Rospigliosi (que posteriormente se tornaria papa com o nome de Clemente IX), inspirado por um epitáfio presente na já citada Bucólicas, cunhou a frase «et in Arcadia ego» (e/até na Arcádia eu). O mote apareceu em Na Arcádia, pintura encomendada a Nicolas Poussin pelo próprio cardeal. A frase seduziu a imaginação de diversos artistas e originou várias obras, como o capítulo «Também eu na Arcádia» das  Viagens pela Itália, de Goethe, e o retrato das senhoras Bouviere e Crewe pintado por sir Joshua Reynolds em 1769, a respeito do qual há uma curiosa anedota no livro:

Reynolds faz uma das senhoras apontar de forma indagadora a inscrição numa lápide, enquanto a outra a examina em profunda contemplação: ET IN ARCADIA EGO ataca novamente. A tela fazia parte de uma das primeiras fornadas de quadros de Reynolds como presidente da Real  Academia (instituição que fora idealizada por ele e acabara de ser formalmente criada em 1768 com o objetivo de organizar a educação artística da alta sociedade britânica). Conta-se que ele mostrou o quadro ao amigo Johnson (primeiro professor de literatura antiga da Real Academia, a partir de 1770) e que este ficou intrigado, achando «sem sentido [a frase] ‘estou na Arcádia’». O que aquilo queria dizer? O artista replicou que o rei Jorge III tinha imediatamente captado o sentido no dia anterior: «Ai, ai», exclamara, «a morte está até na Arcádia.»

Por   História, Literatura   8 de novembro de 2008   0