Posts sobre Filosofia
Discípulo de ninguém
Somente os romancistas revelam a natureza imitativa do desejo. Essa natureza é difícil de se perceber em nossos dias pois a mais fervorosa imitação é a mais vigorosamente negada. Dom Quixote se proclamava discípulo de Amadis e os escritores de sua época se proclamavam discípulos dos Antigos. O vaidoso romântico não se quer mais discípulo de ninguém. Ele se convence de ser infinitamente original. Por toda parte, no século XIX, a espontaneidade se torna dogma, destronando a imitação. Não nos deixemos enganar, insiste Stendhal, os individualismos professados com tanto alarde escondem uma nova forma de cópia. Os enfados românticos, o ódio à sociedade, a nostalgia pelo deserto, tanto quanto o espírito gregário não encobrem, na maioria das vezes, nada mais que um interesse mórbido pelo Outro.
René Girard, Mentira Romântica e Verdade Romanesca.
Por
Aspas, Filosofia, Literatura 21 de novembro de 2010 0
Educação clássica
Tenho em mãos Como Ler Livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren, presente que recebi de minha namorada. A tradução é do Pedro Sette-Câmara e do Edward Horst Wolff. Bacana ver uma editora brasileira publicar esse tipo de livro. A Vida Intelectual, de Sertillanges, vem por aí, né? E só soube há poucos dias que a Companhia das Letras lançou mais um Bellow. Ufa.
Algumas linhas do prefácio escrito por José Monir Nasser para essa nova edição de How to Read a Book:
Mortimer Adler, na realidade, é o maior filósofo da educação do século XX, tendo lutado para preservá-la dos modismos produzidos por pedagogos revolucionários e engenheiros sociais, origem das novas pedagogias pseudolibertadoras. A seu projeto de recuperação do ensino público americano deu o nome de Paideia, seguindo a tradição da formação do homem grego.
Por
Filosofia, Literatura 19 de julho de 2010 3
OK É
Primeiro foi Voeglin. Depois Girard, Lonergan, Frankl. Chegou a vez de Mortimer Adler. Sinto que a É Realizações quer eu gaste todo meu dinheiro em livros.
Por
Filosofia, Literatura 23 de junho de 2010 0
Coberto de razão
A caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois.
C.S. Lewis. Achei aqui.
Por
Aspas, Filosofia 15 de maio de 2010 0
Things uncomely and broken
The wrong of unshapely things is a wrong too great to be told
(W. B. Yeats)
Descobri, no blog do Lord Ass, que Roger Scruton apresentou um programa intitulado Why Beauty Matters na BBC. Gostei bastante. No filme, ele argumenta que o século XX virou as costas à beleza, criando um culto ao disforme (Lady Gaga?), o que conduziu muitos indivíduos ao deserto espiritual. Está no YouTube: parte 1, 2, 3, 4, 5 e 6.
Por
Filosofia 2 de abril de 2010 0
Non ecziste
Como vocês sabem, o Pedro Sette-Câmara traduziu A Theater of Envy: William Shakespeare. Já encomendei. Será um presente para minha namorada. (Todos aqui em casa são leitores de Girard, até o cachorro.) Detalhes sobre o lançamento neste link. Bônus: Girard explica essa tal de teoria mimética.
Por
Filosofia, Literatura 23 de março de 2010 2
Saggezza antica
Por algum motivo banal, talvez mera desatenção, eu nunca havia lido nada do economista e professor Ubiratan Iorio. Mas acabei assistir à gravação de um palestra dele (partes 1, 2, 3, 4 e 5), o que me fez incluí-lo na minha lista de nomes aos quais devo prestar mais atenção. Os artigos do economista podem ser lidos neste link.
Pelo que vi até agora, Iorio realmente segue aquela frase de Hayek que está na abertura do seu site ( «…an economist who is nothing but an economist cannot be a good economist») e também escreve sobre política e sociedade. Nada contra a Economia em si, mas considero os temas ditos culturais (em sentido amplo) mais importantes. Para justificar essa preferência, recorro às aulas sobre literatura brasileira e sobre short stories que tenho na universidade. As duas disciplinas são ministradas por professores brilhantes, mas que são — fato dominante na vida acadêmica brasileira — esquerdistas (o que evidencia como inteligência e sabedoria nem sempre caminham juntas, mas essa é outra história). Eles não hesitam em estabelecer relações entre literatura e vida social, mas o fazem de um modo que é, no mínimo, enviesado. É algo surreal ouvir o professor de literatura brasileira analisar poemas recorrendo a Otto Maria Carpeaux ao mesmo tempo em que pontua seus raciocínios com conceitos socialistas. A professora de short stories também faz proselitismo ideológico sempre que pode. Seu alvo preferido parece ser a Igreja Católica. Mas não é novidade para ninguém que no Brasil de hoje a esquerda praticamente monopoliza as discussões públicas sobre diversos temas, como observa Iorio em «As várias faces do radicalismo».
Dos poucos artigos que li, destaco um sobre o filósofo italiano Giovanni Reale, que despudoradamente copio abaixo. Não coloco o link direto para o site do autor porque lá o material está compactado. Divirtam-se:
Por
Aspas, Atualidades, Filosofia 18 de abril de 2009 0
Semelhanças ocultas
Estabelecida, então, além da oposição tradicional, também uma relação de cooperação entre talento e técnica, poderíamos dizer que caberia ao poeta — e à poesia — mostrar semelhanças onde não se espera achá-las, apresentar as coisas do mundo de maneira inusitada e nova. Em outras palavras, a poesia não se define por um objeto fixo, mas por apresentar certos objetos, por exemplo, os mesmos da filosofia ou da história, segundo uma perspectiva metafórica que lhes revela as semelhanças ocultas.
Do ótimo blog do Érico Nogueira.
Por
Aspas, Filosofia, Literatura 18 de fevereiro de 2009 0
Expectativa escatológica
Na infância eu temia o fim do mundo. Na adolescência descobri que na alma humana há algo que deseja a destruição do mundo com uma força vulcânica. A volúpia da destruição do mundo é talvez a mais poderosas. Qual o fundamento deste desejo poderoso de destruição do mundo? A melhor resposta que tenho encontrado: ele tem fundamento na expectativa escatológica. Na milenar esperança de que a este mundo, após destruído, após o banho de sangue redentor, sucederá o novo céu e a nova terra que é o maior anseio da humanidade. E o papel daquele que irá iniciar esta destruição é o mais cobiçado. Quantos não sacrificaram a sua vida para iniciar o processo de arrasamento da terra.
Encontrei o parágrafo acima no blog do Vinícius de Oliveira.
Por
Aspas, Filosofia 6 de fevereiro de 2009 0
O barbeiro suburbano
A linguagem é diálogo por essência, e todas as outras formas do falar diminuem o poder de sua eficácia. Por isso, acho que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este sente como se uma mão ectoplásmica saísse das linhas para tocar sua pessoa, para acariciá-la — ou então, cortesmente, dar-lhe um soco.
Há alguns dias, em um passeio improvável e repleto de discussões idem (como o leitor sabe, tal combinação é o que há de melhor em termos de convivência humana), um amigo me recomendou a leitura da encíclica Spe Salvi, de Joseph Ratzinger, vulgo Benedictus XVI, com um argumento convincente. Disse ele que o Pontífice, tanto nesse quanto em outros de seus textos, nos convida ao diálogo. Li e não me surpreendi com o que encontrei. Sei que Ratzinger é ótimo argumentador desde a leitura de um debate entre ele e Habermas, no qual fica evidente que aquele articula as idéias de modo mais agradável do que este. Meu amigo estava certo: Spe Salvi é um diálogo tanto com o leitor quanto com a Modernidade.
Em certo momento, Ratzinger faz uma distinção oportuna: diz que o progresso material da humanidade não pode prescindir do progresso moral, afirmação que qualquer indivíduo que conheça a história do século 20 não pode contestar sem parecer ridículo. Afinal, se o homem pode hoje realizar coisas incríveis apenas apertando botões, não é aconselhável que ele permaneça estacionado em uma espécie moral indígena. Dito de modo claro: não se entrega armas de fogo a crianças — é tão óbvio que se sinto meio idiota de não ter percebido isso antes.
Esses dois elementos presentes em Spe Salvi — a saber, o convite ao diálogo e crítica ao progresso meramente materialista — impregnaram os meus pensamentos por algumas horas. Depois, como é natural, os esqueci. Até que, dias depois, reencontrei-os ao ler A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. Como você já percebeu, leitor, um dos trechos a que me refiro é aquele que abre este post. Eis o outro:
Boa parte da perturbação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das «ciências morais». O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista costumam ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê o tom do nosso tempo?
