Posts sobre Aspas
Discípulo de ninguém
Somente os romancistas revelam a natureza imitativa do desejo. Essa natureza é difícil de se perceber em nossos dias pois a mais fervorosa imitação é a mais vigorosamente negada. Dom Quixote se proclamava discípulo de Amadis e os escritores de sua época se proclamavam discípulos dos Antigos. O vaidoso romântico não se quer mais discípulo de ninguém. Ele se convence de ser infinitamente original. Por toda parte, no século XIX, a espontaneidade se torna dogma, destronando a imitação. Não nos deixemos enganar, insiste Stendhal, os individualismos professados com tanto alarde escondem uma nova forma de cópia. Os enfados românticos, o ódio à sociedade, a nostalgia pelo deserto, tanto quanto o espírito gregário não encobrem, na maioria das vezes, nada mais que um interesse mórbido pelo Outro.
René Girard, Mentira Romântica e Verdade Romanesca.
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Aspas, Filosofia, Literatura 21 de novembro de 2010 0
Coberto de razão
A caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois.
C.S. Lewis. Achei aqui.
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Aspas, Filosofia 15 de maio de 2010 0
Cotidianos e secretos
Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos.
Pois é, Drummond.
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Aspas, Literatura 12 de março de 2010 0
Saggezza antica
Por algum motivo banal, talvez mera desatenção, eu nunca havia lido nada do economista e professor Ubiratan Iorio. Mas acabei assistir à gravação de um palestra dele (partes 1, 2, 3, 4 e 5), o que me fez incluí-lo na minha lista de nomes aos quais devo prestar mais atenção. Os artigos do economista podem ser lidos neste link.
Pelo que vi até agora, Iorio realmente segue aquela frase de Hayek que está na abertura do seu site ( «…an economist who is nothing but an economist cannot be a good economist») e também escreve sobre política e sociedade. Nada contra a Economia em si, mas considero os temas ditos culturais (em sentido amplo) mais importantes. Para justificar essa preferência, recorro às aulas sobre literatura brasileira e sobre short stories que tenho na universidade. As duas disciplinas são ministradas por professores brilhantes, mas que são — fato dominante na vida acadêmica brasileira — esquerdistas (o que evidencia como inteligência e sabedoria nem sempre caminham juntas, mas essa é outra história). Eles não hesitam em estabelecer relações entre literatura e vida social, mas o fazem de um modo que é, no mínimo, enviesado. É algo surreal ouvir o professor de literatura brasileira analisar poemas recorrendo a Otto Maria Carpeaux ao mesmo tempo em que pontua seus raciocínios com conceitos socialistas. A professora de short stories também faz proselitismo ideológico sempre que pode. Seu alvo preferido parece ser a Igreja Católica. Mas não é novidade para ninguém que no Brasil de hoje a esquerda praticamente monopoliza as discussões públicas sobre diversos temas, como observa Iorio em «As várias faces do radicalismo».
Dos poucos artigos que li, destaco um sobre o filósofo italiano Giovanni Reale, que despudoradamente copio abaixo. Não coloco o link direto para o site do autor porque lá o material está compactado. Divirtam-se:
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Aspas, Atualidades, Filosofia 18 de abril de 2009 0
Desejo de originalidade
Saul Bellow é, atualmente, um dos meus escritores preferidos, mesmo que dele eu só tenha lido um livro e meio: estou na metade de Herzog; ano retrasado li O Planeta do Sr. Sammler. Fiquei feliz ao saber (se não me engano, por meio do site da Dicta & Contradicta), há alguns meses, que a Companhia das Letras «lançará» Bellow no Brasil. Acho que o autor não é editado na Nova Lusitânia há um bom tempo. Só encontrei O Planeta do Sr. Sammler e Herzog em sebos. Por curiosidade, há umas duas semanas, liguei para a editora. Ao que tudo indica, The Adventures of Augie March chega em meados de agosto. Ano que vem será a vez de Henderson the Rain King. E em 2011 e 2012, Herzog e Humboldt’s Gift, respectivamente. Porém, este calendário pode ser modificado, me disseram.
…
Após terminar O Planeta do Sr. Sammler, escrevi no meu antigo blog algumas observações sobre a leitura. Não as republicarei — para que o leitor não sinta vergonha alheia. Recupero apenas alguns excertos da obra, para que a grandiosidade de Bellow fique evidente a todos que passarem por aqui. Começo com o primeiro parágrafo do livro. Sobre Herzog falarei no futuro.
Pouco após o alvorecer, ou pelo menos o que poderia ter sido o alvorecer num céu normal, o Sr. Arthur Sammler passou a vista de olhos nos seus livros e papéis espalhados pelo quarto que ocupava na zona oeste da cidade, com um sentimento íntimo de que eram os livros errados, os papéis errados. De certa forma, não tinha realmente muita importância para um homem de seus setenta e tantos anos, dispondo de inúmeras horas de lazer. Era preciso ser um verdadeiro maníaco para querer insistir em ter razão. Ter razão era, afinal, apenas uma mera questão de explicações. O homem intelectual tornara-se uma criatura dada a explicações. Os pais para os filhos, as esposas para os maridos, oradoras para ouvintes, peritos para leigos, colegas para colegas, médicos para seus pacientes, o homem para com a sua própria alma, todos tinham explicações para dar. As raízes, ou as causas disso, a fonte dos acontecimentos, a história, a estrutura, as razões do porquê. Na sua maior parte, porém, penetravam por um ouvido para sair logo pelo outro. A alma queria mesmo o que queria: tinha o seu próprio conhecimento; sentada, infeliz, na superestrutura da sua explicação, feito um pássaro que, coitado, não sabia de que lado iria voar.
Mas o pior de tudo, considerando aqueles jovens, era que atuavam sem nenhuma dignidade. Não tinham a mínima compreensão da nobreza inerente de serem intelectuais, e por isso mesmo, juízes da ordem social. Que pena, pensou o velho Sammler. Um ser humano, dando valor à própria pessoa por razões certas, detém e restaura a ordem e a autoridade, quando as partes internas da autoridade não estão em ordem, e tem de estar! Mas qual valor atribuir ao fato de ficar para sempre estacionado numa fase em que se aprende a fazer uso da privada? Qual o significado de permanecer enredado num standard psiquiátrico? (Sammler culpava os alemães com a sua psicanálise por isso.) Pois quem foi que fez da merda um sacramento? Que movimento literário ou psicológico é esse? O Sr. Sammler, com a mente amargurada e zangada, segurava-se no cano superior do seu ônibus, rodando pela cidade, numa curta viagem.
Margotte ficou fascinada. E qualquer coisa assim fascinante era assunto para discutir, e conversar, e olhar sob todos os pontos de vista, com um pedantismo inteiramente germânico. Quem era esse negro? Quais seriam as suas origens? A que classe pertencia? Quais seriam suas atitudes raciais, sua visão psicológica, suas verdadeiras emoções, suas idéias políticas? Seria ele um revolucionário? Seria, talvez, partidário da guerrilha dos negros? A não ser que Sammler tivesse pensamentos particulares para ocupá-lo, jamais conseguiria agüentar as palestras de Margotte. Era ela uma moça muito boa, mas em questões teóricas ficava muito cansativa e quando, por ventura, se preparava para discutir um tema mais a fundo, estava-se perdido. Era por isso que cuidava de moer o seu próprio café, fervia água na sua garrafa, guardava os seus pãezinhos no seu próprio humidor e até urinava na pia do seu quarto (ficava na ponta dos pés, enquanto meditava sobre a melancolia inerente às necessidades da natureza animal, com suas contínuas exigências, conforme os dizeres de Aristóteles). Ah, manhãs inteiras podiam desaparecer enquanto Margotte especulava, em sua bondade.
Elya também estava dedicado a idéias de conduta que pareciam já completamente desacreditadas, que poucos inda tinham ousadia suficiente de defender. Não era o comportamento em si que desaparecera. O que sumira foram as antigas palavras. As formas e os signos estavam ausentes. Não a honra em si, mas a palavra “honra”. Não os impulsos virtuosos, mas os termos representativos, transformados no maior dos despropósitos. Não a compaixão; mas o que era a expressão da compaixão? E exprimir a compaixão era de uma premência mortal. Exprimir o som da esperança e do desejo, exclamações de pena e de dor. Tais coisas foram suprimidas como ilícitas. Às vezes, transpareciam em cifras ou em figuras vagas, rabiscadas em vidraças de edifícios destinados à demolição (na lojinha do alfaiate em frente ao hospital). No momento atual, somente sobrava uma terrível mudez. Sobre as coisas mais essenciais, quase nada podia ser dito. Ainda assim, podiam-se fazer sinais, deviam ser feitos, tinham de ser feitos.
— Não, não quero. Mas o que eu estava dizendo? Vejam, já estou ficando velho. Eu estava dizendo que essa libertação para a individualidade não foi um grande sucesso. Para um historiador pode ser muito interessante, mas para alguém que compreende o sofrimento, é uma coisa apavorante. Corações que não recebem nenhuma retribuição, almas que não encontram nutrição. Falsidades ilimitadas. Necessidades inviáveis dentro de complexas realidades, ilimitadas. Ressurgimento, sob formas infantis e vulgares, de antiquadas idéias religiosas, mistérios, completamente inconscientes — é surpreendente. Orfismo, mitraísmo, maniqueísmo, gnosticismo. Quando sinto a minha vista mais forte, às vezes faço uma leitura da Encyclopedia of religion and ethics de Hastings. Aparecem então muitas semelhanças fascinantes. Mas também podem-se notar os mais estranhos fingimentos, uma trabalhosa e por vezes bastante artística maneira de apresentar-se a si próprio como um individuo e um desejo esquisito de originalidade, distinção e interesse — sim, interesse! Uma dramática imitação de modelos, junto com o repúdio de modelos. A antiguidade aceitava modelos, também a Idade Média — mas não quero transformar-me num livro de história diante de vocês —, mas o homem moderno, talvez por causa da coletivização, está possuído por uma espécie de febre de originalidade. A idéia da singularidade da alma, uma brilhante idéia. Uma idéia verdadeira. Mas sob essas formas? Sob essas nobres formas? Oh, meu Deus! Com esses cabelos? Com essas roupas, drogas e cosméticos, sexo, com passeios pelo mal, monstruosidade e orgias, até mesmo aproximando-se de Deus através de obscenidades? Como a alma deve sentir-se aterrorizada com essa veemência, quão pouco do que lhe é realmente caro pode ela perceber nesses exercícios sádicos. Assim mesmo, o Marquês de Sabe a seu modo louco era um filósofo do Iluminismo. Apenas pretendia ser um blasfemador. Mas para aqueles que seguem (e que não se dão conta disso) suas práticas recomendadas, a idéia não é mais a blasfêmia, mas higiene, prazer que também é higiene, e uma vida encantadora e interessante. Uma vida interessante é o supremo conceito dos simplórios.
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Aspas, Literatura 27 de março de 2009 7
Outro Isaac
Um fantasma ronda os blogs: o fantasma do meme da página 161. (Até consultei minha edição de bolso de O Manifesto Comunista, pois não me recordava ao certo da frase original; lembrava, somente, que era algo cafona). Tardou, mas ei-lo aqui, no Ocidente. A culpa é do Caio e do Gustavo. Tomo em mãos os Contos Escolhidos, de Isaac Babel. Abro-o na página solicitada. Na quinta frase, há o que se segue: «Os convidados se levantaram e começaram a cheirar as suas mulheres e a uivar.»
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Aspas, Literatura, Qualquer 14 de março de 2009 1
Semelhanças ocultas
Estabelecida, então, além da oposição tradicional, também uma relação de cooperação entre talento e técnica, poderíamos dizer que caberia ao poeta — e à poesia — mostrar semelhanças onde não se espera achá-las, apresentar as coisas do mundo de maneira inusitada e nova. Em outras palavras, a poesia não se define por um objeto fixo, mas por apresentar certos objetos, por exemplo, os mesmos da filosofia ou da história, segundo uma perspectiva metafórica que lhes revela as semelhanças ocultas.
Do ótimo blog do Érico Nogueira.
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Aspas, Filosofia, Literatura 18 de fevereiro de 2009 0
Expectativa escatológica
Na infância eu temia o fim do mundo. Na adolescência descobri que na alma humana há algo que deseja a destruição do mundo com uma força vulcânica. A volúpia da destruição do mundo é talvez a mais poderosas. Qual o fundamento deste desejo poderoso de destruição do mundo? A melhor resposta que tenho encontrado: ele tem fundamento na expectativa escatológica. Na milenar esperança de que a este mundo, após destruído, após o banho de sangue redentor, sucederá o novo céu e a nova terra que é o maior anseio da humanidade. E o papel daquele que irá iniciar esta destruição é o mais cobiçado. Quantos não sacrificaram a sua vida para iniciar o processo de arrasamento da terra.
Encontrei o parágrafo acima no blog do Vinícius de Oliveira.
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Aspas, Filosofia 6 de fevereiro de 2009 0
Perdeu, Nietzsche
O indivíduo real sem dúvida existe, é aquele que contraria a multidão por razões não relacionadas a um desejo mimético negativo, é aquele que pode resistir à multidão. Nietzsche não poderia estar mais equivocado, ao declarar que o Cristianismo é a religião da multidão e que o culto a Dionísio representa a religião da aristocracia. É exatamente o contrário: Dionísio é a multidão; o Cristianismo, a minoria capaz de resistir à multidão.
René Girard. Um longo argumento do princípio ao fim.
