Posts de março de 2009

Desejo de originalidade

Saul Bellow é, atualmente, um dos meus escritores preferidos, mesmo que dele eu só tenha lido um livro e meio: estou na metade de Herzog; ano retrasado li O Planeta do Sr. Sammler. Fiquei feliz ao saber (se não me engano, por meio do site da Dicta & Contradicta), há alguns meses, que a Companhia das Letras «lançará» Bellow no Brasil. Acho que o autor não é editado na Nova Lusitânia há um bom tempo. Só encontrei O Planeta do Sr. Sammler e Herzog em sebos. Por curiosidade, há umas duas semanas, liguei para a editora. Ao que tudo indica, The Adventures of Augie March chega em meados de agosto. Ano que vem  será a vez de Henderson the Rain King. E em 2011 e 2012, Herzog e Humboldt’s Gift, respectivamente. Porém, este calendário pode ser modificado, me disseram.

Após terminar O Planeta do Sr. Sammler, escrevi no meu antigo blog algumas observações sobre a leitura. Não as republicarei — para que o leitor não sinta vergonha alheia. Recupero apenas alguns excertos da obra, para que a grandiosidade de Bellow fique evidente a todos que passarem por aqui. Começo com o primeiro parágrafo do livro. Sobre Herzog falarei no futuro.

Pouco após o alvorecer, ou pelo menos o que poderia ter sido o alvorecer num céu normal, o Sr. Arthur Sammler passou a vista de olhos nos seus livros e papéis espalhados pelo quarto que ocupava na zona oeste da cidade, com um sentimento íntimo de que eram os livros errados, os papéis errados. De certa forma, não tinha realmente muita importância para um homem de seus setenta e tantos anos, dispondo de inúmeras horas de lazer. Era preciso ser um verdadeiro maníaco para querer insistir em ter razão. Ter razão era, afinal, apenas uma mera questão de explicações. O homem intelectual tornara-se uma criatura dada a explicações. Os pais para os filhos, as esposas para os maridos, oradoras para ouvintes, peritos para leigos, colegas para colegas, médicos para seus pacientes, o homem para com a sua própria alma, todos tinham explicações para dar. As raízes, ou as causas disso, a fonte dos acontecimentos, a história, a estrutura, as razões do porquê. Na sua maior parte, porém, penetravam por um ouvido para sair logo pelo outro. A alma queria mesmo o que queria: tinha o seu próprio conhecimento; sentada, infeliz, na superestrutura da sua explicação, feito um pássaro que, coitado, não sabia de que lado iria voar.

Mas o pior de tudo, considerando aqueles jovens, era que atuavam sem nenhuma dignidade. Não tinham a mínima compreensão da nobreza inerente de serem intelectuais, e por isso mesmo, juízes da ordem social. Que pena, pensou o velho Sammler. Um ser humano, dando valor à própria pessoa por razões certas, detém e restaura a ordem e a autoridade, quando as partes internas da autoridade não estão em ordem, e tem de estar! Mas qual valor atribuir ao fato de ficar para sempre estacionado numa fase em que se aprende a fazer uso da privada? Qual o significado de permanecer enredado num standard psiquiátrico? (Sammler culpava os alemães com a sua psicanálise por isso.) Pois quem foi que fez da merda um sacramento? Que movimento literário ou psicológico é esse? O Sr. Sammler, com a mente amargurada e zangada, segurava-se no cano superior do seu ônibus, rodando pela cidade, numa curta viagem.

Margotte ficou fascinada. E qualquer coisa assim fascinante era assunto para discutir, e conversar, e olhar sob todos os pontos de vista, com um pedantismo inteiramente germânico. Quem era esse negro? Quais seriam as suas origens? A que classe pertencia? Quais seriam suas atitudes raciais, sua visão psicológica, suas verdadeiras emoções, suas idéias políticas? Seria ele um revolucionário? Seria, talvez, partidário da guerrilha dos negros? A não ser que Sammler tivesse pensamentos particulares para ocupá-lo, jamais conseguiria agüentar as palestras de Margotte. Era ela uma moça muito boa, mas em questões teóricas ficava muito cansativa e quando, por ventura, se preparava para discutir um tema mais a fundo, estava-se perdido. Era por isso que cuidava de moer o seu próprio café, fervia água na sua garrafa, guardava os seus pãezinhos no seu próprio humidor e até urinava na pia do seu quarto (ficava na ponta dos pés, enquanto meditava sobre a melancolia inerente às necessidades da natureza animal, com suas contínuas exigências, conforme os dizeres de Aristóteles). Ah, manhãs inteiras podiam desaparecer enquanto Margotte especulava, em sua bondade.

Elya também estava dedicado a idéias de conduta que pareciam já completamente desacreditadas, que poucos inda tinham ousadia suficiente de defender. Não era o comportamento em si que desaparecera. O que sumira foram as antigas palavras. As formas e os signos estavam ausentes. Não a honra em si, mas a palavra “honra”. Não os impulsos virtuosos, mas os termos representativos, transformados no maior dos despropósitos. Não a compaixão; mas o que era a expressão da compaixão? E exprimir a compaixão era de uma premência mortal. Exprimir o som da esperança e do desejo, exclamações de pena e de dor. Tais coisas foram suprimidas como ilícitas. Às vezes, transpareciam em cifras ou em figuras vagas, rabiscadas em vidraças de edifícios destinados à demolição (na lojinha do alfaiate em frente ao hospital). No momento atual, somente sobrava uma terrível mudez. Sobre as coisas mais essenciais, quase nada podia ser dito. Ainda assim, podiam-se fazer sinais, deviam ser feitos, tinham de ser feitos.

— Não, não quero. Mas o que eu estava dizendo? Vejam, já estou ficando velho. Eu estava dizendo que essa libertação para a individualidade não foi um grande sucesso. Para um historiador pode ser muito interessante, mas para alguém que compreende o sofrimento, é uma coisa apavorante. Corações que não recebem nenhuma retribuição, almas que não encontram nutrição. Falsidades ilimitadas. Necessidades inviáveis dentro de complexas realidades, ilimitadas. Ressurgimento, sob formas infantis e vulgares, de antiquadas idéias religiosas, mistérios, completamente inconscientes — é surpreendente. Orfismo, mitraísmo, maniqueísmo, gnosticismo. Quando sinto a minha vista mais forte, às vezes faço uma leitura da Encyclopedia of religion and ethics de Hastings. Aparecem então muitas semelhanças fascinantes. Mas também podem-se notar os mais estranhos fingimentos, uma trabalhosa e por vezes bastante artística maneira de apresentar-se a si próprio como um individuo e um desejo esquisito de originalidade, distinção e interesse — sim, interesse! Uma dramática imitação de modelos, junto com o repúdio de modelos. A antiguidade aceitava modelos, também a Idade Média — mas não quero transformar-me num livro de história diante de vocês —, mas o homem moderno, talvez por causa da coletivização, está possuído por uma espécie de febre de originalidade. A idéia da singularidade da alma, uma brilhante idéia. Uma idéia verdadeira. Mas sob essas formas? Sob essas nobres formas? Oh, meu Deus! Com esses cabelos? Com essas roupas, drogas e cosméticos, sexo, com passeios pelo mal, monstruosidade e orgias, até mesmo aproximando-se de Deus através de obscenidades? Como a alma deve sentir-se aterrorizada com essa veemência, quão pouco do que lhe é realmente caro pode ela perceber nesses exercícios sádicos. Assim mesmo, o Marquês de Sabe a seu modo louco era um filósofo do Iluminismo. Apenas pretendia ser um blasfemador. Mas para aqueles que seguem (e que não se dão conta disso) suas práticas recomendadas, a idéia não é mais a blasfêmia, mas higiene, prazer que também é higiene, e uma vida encantadora e interessante. Uma vida interessante é o supremo conceito dos simplórios.

Por   Aspas, Literatura   27 de março de 2009   7  

Elza

… o escritor e jornalista mineiro Sérgio Rodrigues se volta para um episódio pouco lembrado e um tanto obscuro do passado em Elza, a Garota. Misturando jornalismo, ensaio e ficção, recupera a história do assassinato da adolescente Elza Fernandes, estrangulada a mando do Partido Comunista Brasileiro em 1936, meses após a malfadada tentativa do Partidão de tomar o poder no governo Getúlio Vargas — a Intentona Comunista.

Do site da Bravo. Lerei.

Por   Literatura   19 de março de 2009   0  

Outro Isaac

Um fantasma ronda os blogs: o fantasma do meme da página 161. (Até consultei minha edição de bolso de O Manifesto Comunista, pois não me recordava ao certo da frase original; lembrava, somente, que era algo cafona). Tardou, mas ei-lo aqui, no Ocidente. A culpa é do Caio e do Gustavo. Tomo em mãos os Contos Escolhidos, de Isaac Babel. Abro-o na página solicitada. Na quinta frase, há o que se segue: «Os convidados se levantaram e começaram a cheirar as suas mulheres e a uivar.»

Por   Aspas, Literatura, Qualquer   14 de março de 2009   1  

Agamêmnon e Abraão

Durante a homilia, domingo, o padre não falou do Dia Internacional da Mulher ou sobre «justiça social», mas sim do quase sacrifício de Isaac. Recorreu a Homero e à mitologia para observar que, enquanto Deus impedia que Abraão matasse uma criança, uma das quatro filhas de Agamêmnon era sacrificada a uma divindade pelo próprio pai. Por contraste, fica claro que o Deus dos Hebreus repudia sacrifícios humanos. Tal fato torna mais inquietante a lembrança de que um anjo suspendeu o sacrifício do pequeno Isaac, mas nenhum ousou interromper o massacre de Jesus.

Como é bom quando um sacerdote diz coisas relevantes, demonstrando que todos aqueles anos de estudos lhe foram úteis. No final, pareceu-me que, com aquelas digressões, o padre criticava, apesar da sutileza, a prática de abortos. Foi então que lembrei-me dessa notícia:

In describing his conversion, Adasevic «dreamed about a beautiful field full of children and young people who were playing and laughing, from 4 to 24 years of age, but who ran away from him in fear. A man dressed in a black and white habit stared at him in silence.  The dream was repeated each night and he would wake up in a cold sweat. One night he asked the man in black and white who he was. ‘My name is Thomas Aquinas,’ the man in his dream responded. Adasevic, educated in communist schools, had never heard of the Dominican genius saint.  He didn’t recognize the name»

Por   Atualidades, História, Literatura   10 de março de 2009   2  

Control

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Por   Música, Visuais   5 de março de 2009   0