Posts de novembro de 2008

Señoritas

O vídeo acima é dica do Vinicius. Descobrindo bandas portuguesas, sou mais feliz. (Obrigado, meu caro.) Há dias não publico aqui nada que preste. Esse post não conta, porque ele tampouco presta. É que o mundo resolveu se tornar, de chofre, meio nietzschiano. Está querendo provar para mim que está «além do bem e do mal», veja só. Computador arruinado, final de semestre numa universidade repleta de professores sádicos, emprego demente etc. Mas não reclamo, divirto-me. Pois estou com Tchekhov: «… para Riabóvitch, tudo isso é completamente compreensível, e por isso desinteressante ao extremo». Volto assim que o mundo parar de bancar o Übermensch. Afinal, ele não tem mais idade para ficar por aí de collant.

Por   Música, Qualquer   28 de novembro de 2008   4  

Barba e livro. Bigode


Encontrei-a no site que o Google criou para hospedar imagens da revista Life.

Por   Fotografia   22 de novembro de 2008   2  

Overshadowing the pop

Por   Música   15 de novembro de 2008   0  

O barbeiro suburbano

A linguagem é diálogo por essência, e todas as outras formas do falar diminuem o poder de sua eficácia. Por isso, acho que um livro só é bom na medida em que nos traz um diálogo latente, em que sentimos que o autor sabe imaginar concretamente seu leitor e este sente como se uma mão ectoplásmica saísse das linhas para tocar sua pessoa, para acariciá-la — ou então, cortesmente, dar-lhe um soco.

Há alguns dias, em um passeio improvável e repleto de discussões idem (como o leitor sabe, tal combinação é o que há de melhor em termos de convivência humana), um amigo me recomendou a leitura da encíclica Spe Salvi, de Joseph Ratzinger, vulgo Benedictus XVI, com um argumento convincente. Disse ele que o Pontífice, tanto nesse quanto em outros de seus textos, nos convida ao diálogo. Li e não me surpreendi com o que encontrei. Sei que Ratzinger é ótimo argumentador desde a leitura de um debate entre ele e Habermas, no qual fica evidente que aquele articula as idéias de modo mais agradável do que este. Meu amigo estava certo: Spe Salvi é um diálogo tanto com o leitor quanto com a Modernidade.

Em certo momento, Ratzinger faz uma distinção oportuna: diz que o progresso material da humanidade não pode prescindir do progresso moral, afirmação que qualquer indivíduo que conheça a história do século 20 não pode contestar sem parecer ridículo. Afinal, se o homem pode hoje realizar coisas incríveis apenas apertando botões, não é aconselhável que ele permaneça estacionado em uma espécie moral indígena. Dito de modo claro: não se entrega armas de fogo a crianças — é tão óbvio que se sinto meio idiota de não ter percebido isso antes.

Esses dois elementos presentes em Spe Salvi — a saber, o convite ao diálogo e crítica ao progresso meramente materialista — impregnaram os meus pensamentos por algumas horas. Depois, como é natural, os esqueci. Até que, dias depois, reencontrei-os ao ler A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. Como você já percebeu, leitor, um dos trechos a que me refiro é aquele que abre este post. Eis o outro:

Boa parte da perturbação atual provém da incongruência entre a perfeição de nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das «ciências morais». O ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista costumam ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê o tom do nosso tempo?

Por   Filosofia   14 de novembro de 2008   2  

Et in Arcadia ego

Por indicação acadêmica, li Antigüidade Clássica, um livreto no qual, depois de algumas considerações sobre Roma e Grécia antigas, os autores concluem o óbvio: «nossa cultura [ocidental] se apóia em séculos de investigação dos clássicos, legado presente em quase tudo que fazemos ou pensamos.» Estão montados na razão. Sem conhecer a Ilíada e a Eneida eu não perceberia que há um Aquiles e um Enéias dentro das cabeças de todos nós, mesmo que não o saibamos. Talvez a influência clássica esteja um pouco soterrada pelas idéias do guru moderno, Marxnietzschefreud, que ocupou a praça e lá, há anos, anda a fazer prestidigitações. Mas Cyndi Lauper passou, ele passará e Mário Quintana passarinho.

Voltando ao livreto, o elemento central ao redor do qual os autores constroem seus argumentos é a ruína do templo de Bassai, dedicado ao deus Apolo e localizado na Arcádia. Mais especificamente, eles analisam o friso dessa construção grega, hoje preservado no Museu Britânico, em Londres. Para tentar decifrar as figuras entalhadas na pedra, acabam criando uma reflexão sobre a tradição greco-romana.

O que mais me interessou foi a discussão final, sobre como a Arcádia é vista e retratada de modos diferentes por diversas obras de arte ao longo da história. Políbio, historiador grego que viveu no século 2 a.C., ele próprio um árcade, conta que região era tão desolada que o canto era a única coisa que restava àquela população como forma de ter algo mais do que apenas uma vida dura. O curioso é que a visão que temos hoje do local é diferente. Até nós chegou uma Arcádia idílica, justamente aquela retratada nas Bucólicas, de Virgílio. Imaginamos um paraíso pastoril repleto de prazeres, cujo lema é o famoso carpe diem.

Um episódio interessante, segundo o livro, envolvendo a Arcádia, se dá na Roma do início do século 17. O cardeal Giulio Rospigliosi (que posteriormente se tornaria papa com o nome de Clemente IX), inspirado por um epitáfio presente na já citada Bucólicas, cunhou a frase «et in Arcadia ego» (e/até na Arcádia eu). O mote apareceu em Na Arcádia, pintura encomendada a Nicolas Poussin pelo próprio cardeal. A frase seduziu a imaginação de diversos artistas e originou várias obras, como o capítulo «Também eu na Arcádia» das  Viagens pela Itália, de Goethe, e o retrato das senhoras Bouviere e Crewe pintado por sir Joshua Reynolds em 1769, a respeito do qual há uma curiosa anedota no livro:

Reynolds faz uma das senhoras apontar de forma indagadora a inscrição numa lápide, enquanto a outra a examina em profunda contemplação: ET IN ARCADIA EGO ataca novamente. A tela fazia parte de uma das primeiras fornadas de quadros de Reynolds como presidente da Real  Academia (instituição que fora idealizada por ele e acabara de ser formalmente criada em 1768 com o objetivo de organizar a educação artística da alta sociedade britânica). Conta-se que ele mostrou o quadro ao amigo Johnson (primeiro professor de literatura antiga da Real Academia, a partir de 1770) e que este ficou intrigado, achando «sem sentido [a frase] ‘estou na Arcádia’». O que aquilo queria dizer? O artista replicou que o rei Jorge III tinha imediatamente captado o sentido no dia anterior: «Ai, ai», exclamara, «a morte está até na Arcádia.»

Por   História, Literatura   8 de novembro de 2008   0