Posts de outubro de 2008

Ok Auerbach

No famoso primeiro capítulo de Mimesis, de Erich Auerbach, intitulado «A Cicatriz de Ulisses», o crítico parte de um episódio da Odisséia para argumentar que o elemento da tensão é muito débil nas poesias homéricas. A cena em questão se dá no canto 19, quando Ulisses regressa e Euricléia, sua antiga ama, o reconhece por uma cicatriz na coxa. O relato desse incidente é interrompido, observa Auerbach, por mais de setenta versos. Isso ocorre exatamente no momento do reconhecimento. Após detalhada explicação da origem da marca, o narrador retorna ao aposento da dupla. É como se eles tivessem permanecido congelados, ela com careta de surpresa. Só então Euricléia deixa cair o pé de Ulisses na bacia. Habemus tensão? Nem.

Segundo Auerbach, Homero não conhece segundos planos. «O que ele nos narra é somente presente, e preenche completamente a cena e a consciência do leitor.» Tal idéia é reforçada por uma citação de Schiller, que — em correspondência a Goethe — disse que Homero descreve «meramente a tranqüila existência e ação das coisas segundo a sua natureza». Ou seja, não há espaço para a penumbra e para o inacabado no estilo do poeta, mas sim «necessidade de exteriorização dos fenômenos». Quando a cicatriz aparece no decorrer da ação, não é possível ao estilo homérico «deixá-la emergir simplesmente da escuridão de um passado obscuro; ela deve sair claramente à luz, e com ela, um pouco da juventude do herói». Isso ocorre não apenas com as ações, mas também com os processos psicológicos, uma vez que as personagens de Homero mostram o que carregam dentro de si por meio de discursos, e «o que não dizem aos outros, falam para si», em voz alta, quase berrando. Um exemplo desse mecanismo, muito bem destacado por Auerbach, ocorre quando, antes e após lutarem, Heitor e Aquiles falam, falam e falam.

Por   Literatura   28 de outubro de 2008   0  

Epic fail

Custo a aceitar que o percentual da população que age com deliberada maldade seja superior a 1,97%. Então, por que há tanta gente fazendo, hum, merda? Pensava sobre isso um dia desses quando cheguei à seguinte resposta: muitos fazem o mal pensando fazer o bem. Dito de outra forma: o anseio pelo melhor poucas vezes se concretiza em ações virtuosas (no sentido de viris, próprias de homens). Vou chamar tal fenômeno de Dilema do Gate. Todos conhecem o desfecho daquele seqüestro noticiado à exaustão: a vítima acabou morta e o bandido, vivo. Por quê? Porque a polícia, o Gate, ficou em dúvida sobre como agir. Se atirasse no seqüestrador — réu primário, um jovem em «crise amorosa» — , seria acusada de brutalidade. Resolveu esperar. Deu no que deu. Pensando fazer o bem, colaborou com o mal. Vejam: essa inversão ocorre muito no mundo político. Qualquer pessoa que tenha freqüentado uma universidade já viu como muitos jovens bem intencionados (que querem amar o mundo «como se não houvesse amanhã») apóiam idéias que provocaram genocídios num passado recentíssimo.

Mas essa resposta explicava apenas parcialmente como a aspiração praticamente universal pelo Bem pode conduzir tantos à tolice. Percebi, então, que há dois elementos importantes na questão. Um deles é a aspiração que todo «sujeito homem» tem pelo Bem. Há quem pense ser cool apoiar terroristas islâmicos. E o faz porque vê nisso algo «legal», «descolado» ou «libertário», o que não deixar de envolver uma certa percepção (mesmo que estúpida) de um valor superior. O segundo elemento, que inicialmente me havia escapado, é que o Bem não se dá a conhecer facilmente — para consternação geral dos hippies e caoístas do nosso Impávido Colosso, que costumam achar que o Bem é mera questão de perspectiva.

Com isso nos aproximamos da solução do problema inicial: não basta desejar o Bem, é preciso conhecê-lo, o que exige esforços nada desprezíveis. A não ser em casos excepcionais, a maioria das pessoas precisa quebrar a cabeça para saber o que é realmente bom. Não sei o motivo disso (já que o Bem, para realmente poder ser assim chamado, deveria ser algo simples, evidente). Mas o fato é que o homem tem dificuldade de perceber aquilo que lhe é superior. Seria isso uma conseqüência da Primeira Burrada, aquela do Adão? Não sei. A vida é mistério.

Enfim, queremos o Bem, mas só fazemos cagada. Aspiramos pelo melhor. Contudo, deixamos as ações que realmente nos conduziriam a tanto para amanhã. A presença dessas variáveis permite aquilo o que eu chamo de Mecanismo Lulobama (ML): quanto maior a preguiça que um sujeito tem de pensar por conta própria, maior será sua propensão em acreditar em quem se autodenomina Salvador, principalmente se a mídia reforça que a criatura é mesmo a Mudança, a Boa Nova. Como as pessoas normais possuem certa resistência a esforços, elas tendem a considerar que o agente do ML é representante de algo bom. Tá todo mundo dizendo, né?

Some preguiça colossal, certa aspiração pelo Bem e ignorância completa sobre o que ele realmente seja. Resultado provável: epic fail.

Por   Qualquer   27 de outubro de 2008   1  

Medo do Lobo Antunes?

Portugal tem muitas coisas boas, mas nunca ouvira um rock lusitano que fosse empolgante. Por isso fiquei surpreso com Desliga a TV, canção dos Ninivitas que contém versos cómicos como «Vai lá num instante à tua estante e pega no Dante» e «Saramago é bom mas não te dá a salvação» (ouça no MySpace da banda). Um dos integrantes do grupo é o Tiago Guillul, responsável pelo punk-chiclete A Isabel é Intelectual (porque perdeu a virgindade na Feira do Livro), que também está no MySpace. Imperdível.

Por   Música   20 de outubro de 2008   5  

Igualdade, fraternidade


Eva Green: repararam no cigarro? Nem eu
Eu, uns 16 anos, festa de família, aquelas coisas. Um primo comenta — com ar espertalhão — que uma das garotas presente era mesmo linda, mas como fumava, «ficava feia». Senti dor ao ouvir aquilo. E não foi pelo fato da frase ser muito gay. É que sinto dor sempre que ouço idiotices em geral. Creio que também faço expressão de dor nessas horas, pois as pessoas sempre percebem quando acho algo muito idiota, é incrível. Mas divago. O que quero mesmo dizer é que hoje tive um pensamento sabido: todos os homens inteligentes são diferentes; todos os imbecis são iguais. Podem verificar.

Por   Qualquer   16 de outubro de 2008   2  

A morte do marxismo

1) Graphs on the death of Marxism and other stupid academic fads. 2) Horace Engdahl, secretário permanente da Academia Sueca (responsável pelo Prêmio Nobel da Literatura), em entrevista à Associated Press, disse: «The U.S. is too isolated, too insular. They don’t translate enough and don’t really participate in the big dialogue of literature». Quem respondeu foi Giles Foden, romancista e professor de Escrita Criativa na University of East Anglia, no The Guardian: «The proper response to Engdahl is a word conceived in America but universally understood: bullshit». 3) Larry Rohter — o jornalista americano que, em 2004, chamou Lula de pinguço —, publicou uma reportagem sobre Machado de Assis no New York Times. 4) Machado saiu também na Newsweek, ganhou um especial o Estadão e teve toda sua obra digitalizada pelo Ministério da Educação. 5) E, ainda sobre o escritor, leiam este post do Pedro Mexia, que reproduzo:

Porquê Machado? Porque é um inglês no Rio. Um sujeito céptico, fleumático, inquieto, lúcido. Porque é, com Tchekhov, o génio da tragicomédia. Porque tem ironia no understatement e no virtuosismo de estilo. Porque é lúdico na narrativa e pessimista no retrato. Porque escreveu livros «de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado». Porque superou incompletamente o romantismo (como se deve) e não embarcou na superstição naturalista. Porque foi um escritor de ideias, mas logo trocava uma ideia por uma digressão, por um detalhe, por um gesto.

Por   Links, Literatura   4 de outubro de 2008   1